terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mídia e Violência

Robson Sávio Reis Souza
Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da PUC Minas

O preconceito, a luta pela igualdade racial, as discriminações religiosas e sexuais e tantos outros dilemas sociais geralmente não fazem parte da pauta da grande mídia no Brasil. Já a superexposição na mídia de vários tipos de crimes, associada a preconceitos, sentimentos de vingança e desinformação acerca dos fenômenos da violência, provoca a banalização dos valores humanos. O aumento da criminalidade violenta, nos últimos anos, trouxe para a agenda social as deficiências das políticas de segurança pública – entendida como direito do cidadão e dever do Estado. Outrora, assunto restrito a poucos atores, agora a temática da segurança pública alcança o centro das discussões, numa sociedade aflita e com medo. A mídia, percebendo a importância do momento histórico, e principalmente o poder de vocalização dessa demanda pela classe média, sua maior consumidora, tem aprofundado as discussões sobre a questão, pautando de forma cada vez mais constante a cobertura acerca da violência.

Compreende-se que a cobertura do cotidiano violento das grandes cidades não é tarefa fácil. Por trás de eventos violentos, outras questões estão ocultas e dificilmente podem ser contempladas em cada matéria ou reportagem que envolve a abordagem do tema pela mídia. É evidente a complexidade que envolve o fenômeno da violência. E, por consequência, a dificuldade ou a quase impossibilidade do profissional da comunicação que cobre o factual de abordar todas essas questões na apresentação de cada notícia sobre o tema. Isso sem contar, obviamente, com outras dificuldades de abordagem, como o reduzido espaço ou tempo para apresentar a notícia. Além disso, não podemos nos esquecer da rotina massacrante das redações, que não permite o aperfeiçoamento e o aprendizado contínuo dos profissionais da comunicação.

Em relação à abordagem de determinados temas, há que se exigir responsabilidade e conhecimento. Afinal, a forma e o conteúdo de exposição dos vários tipos de violência pela mídia devem ser questionados. Obviamente, não estamos tratando aqui de qualquer tipo de censura; ao contrário, defendemos uma interlocução cada vez mais consistente entre os profissionais da comunicação, pesquisadores do tema, operadores da segurança pública e a sociedade. A mídia deveria ser o espelho fiel das contradições e conflitos existentes na sociedade. Evidente, portanto, que na sua pauta apareça a questão da segurança pública como uma das principais demandas de discussão da sociedade brasileira na atualidade.

É também fundamental que a divulgação e a apuração das informações acerca de estatísticas criminais sejam rigorosamente avaliadas: quem produz a notícia de levar em conta a subnotificação de vários tipos de ocorrências; os interesses políticos que envolvem a divulgação das notícias; os vieses evidentes em análises feitas por operadores e especialistas. O papel da imprensa na discussão sobre os dilemas da violência é de fundamental importância para o aprimoramento das políticas públicas nessa área. Apesar das eventuais limitações, observamos que muitos profissionais da mídia têm se esforçado numa cobertura responsável da temática, o que contribui, inclusive, para a difusão de programas, metodologias e projetos de prevenção à violência, implementação da cultura da paz, soluções mediadas de conflitos, criação de redes comunitárias solidárias etc. Ou seja, a cobertura do fenômeno da violência pode oferecer aos cidadãos soluções que suplantam o medo, a sensação de impotência e de descrédito das instituições, quando o problema é tratado com responsabilidade e sem sensacionalismo. A mídia pode apresentar práticas viáveis de superação do medo e da impotência, criando condições de mobilização social e comunitária que, efetivamente, são fundamentais para a coesão social e a superação da violência.

Muito além dos crimes que recheiam os noticiários na mídia, outras tantas formas de violência que afrontam cotidianamente os direitos humanos são naturalizadas em nossa sociedade. Nesse âmbito a mídia tem um papel relevante, podendo fomentar uma discussão sobre essa violência generalizada historicamente escamoteada em nossa sociedade: contra crianças, mulheres, negros, homossexuais, entre tantas outras.

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